• Stephany Melo

Chica da Semana #95: Educação, cultura e um olhar para as periferias com Amanda e Jussara

Em meio às manchetes que têm sido como um soco no estômago nessa quarentena, gostaria de destacar uma notícia boa em especial: o Senado aprovou enfim o projeto que adia a prova do Enem. E como filha de escola pública e ProUni que sou, formada em Jornalismo há dois anos, me imaginei nessa situação e sei o quanto o adiamento é importante. Foi de olho nos projetos do Cursinho Popular Dandara e Sarau na Praça, em Cotia, cidade onde cresci e passo a quarentena, que convidamos as mulheres que coordenam isso tudo para falar um pouco sobre acesso à educação e cultura: Amanda Santos, formada em Ciência Política e Professora de Sociologia, e Jussara Suzano Bento, estudante de Biologia, Educadora Popular e aspirante a artista.


Chicas, a conversa desta semana também é um questionamento e um convite: quantas das pessoas no seu ambiente de trabalho ou convívio estudaram em escolas públicas ou moram em periferias? Como é o acesso aos movimentos culturais perto da sua casa? As diferenças sociais no momento em que vivemos estão gritantes e é importante questionarmos cada detalhe, cada vez mais.

Separa uns minutinhos e vem mergulhar nessa história:


Falem um pouco de vocês brevemente para as chicas, meninas.


Amanda: Sou sagitariana, 23 anos e atualmente me divido entre duas cidades: Campinas e Cotia. Me formei em Ciências Sociais no final do ano passado na UNICAMP e trabalho com projetos sociais voltados às juventudes das classes D e E. Sempre morei no Jardim São Miguel, em Cotia, que é minha quebrada amada. Sempre articulei e participei de iniciativas voltadas a cultura e educação na cidade de Cotia, acho que como uma forma de abrir alguns caminhos para outros jovens, assim como fizeram comigo.


Jussara: Eu sou péssima com apresentações e esse é um péssimo jeito de começar as coisas, mas meu nome é Jussara e tenho 23 anos. Sou virginiana e atualmente estudante de biologia na UNIFESP. E assim, como a Amanda, também me divido entre duas cidades: Diadema e Cotia. Uma aspirante a artista, talvez? E venho fazendo parte há mais ou menos quatro anos da articulação e participação dessas iniciativas voltadas tanto para educação, quanto para cultura na cidade.


Antes de tudo, estamos curiosas: como vocês se conheceram?

A: Nos conhecemos no cursinho Dandara, quando a Jussara entrou como professora, já faz um tempão. Depois não desgrudamos mais, trabalhamos juntas desde 2016.



Como surgiu e o que são os projetos Sarau na Praça e o Cursinho Popular Dandara? Vamos por parte, aliás: falem um pouco do Sarau na Praça pra gente primeiro.

J: O projeto do Sarau na Praça surgiu de uma iniciativa do coletivo Juventude Libre, de uma campanha por um teatro municipal na nossa cidade, no estilo de panfletagem e intervenção cultural. O objetivo era conseguir visibilidade pra causa e reivindicar essa pauta do acesso à cultura que é tão precarizado no lugar onde viemos. Assim, surgiu a necessidade de intervenções culturais periódicas que ocorriam na praça, que então passou a ser um sarau, que existe há quatro anos.

A: Eu fiz parte da organização do Sarau na Praça desde de o início, quando pensávamos em uma alternativa de lazer que não fosse somente o Shopping Center. Como não tínhamos um teatro, tivemos a ideia de organizar uma atividade ao ar livre, que fosse democrática. Hoje o sarau na praça já acontece há quatro anos na cidade de Cotia e segue firme e forte. A Ju já falou (e muito bem) sobre o sarau, vou comentar um pouquinho mais o cursinho...


E o Cursinho Popular?


J: O cursinho surgiu antes mesmo do Sarau, tem por volta de nove anos de construção, que começou com um grupo de estudos, se não me engano. Foi um projeto no qual cheguei bem depois. Porém, em meados de 2016, cheguei como professora de biologia e, naquela época, tinha meia dúzia de professores - então às vezes eu ficava o domingo todo com os alunos pra tentar suprir algumas das aulas que eles não tinham, sabe? Em 2017, convidei umas ex-colegas de classe para ministrarem aulas também, elas toparam, e o quadro de professores foi aumentando, até que entrei pra organização do curso em 2018 e fortaleci nessa busca por voluntários nas mídias sociais do projeto. Hoje, por motivos de organização pessoal, não dou mais aulas. Apesar de não termos uma organização muito hierarquizada, faço parte somente da coordenação do curso mesmo, juntamente com a Amanda.

A: Bom, ele surgiu em 2011, e se iniciou como um grupo de estudos e discussão composto por jovens. Durante os anos o cursinho foi ganhando robustez e a eu passei a fazer parte mais ativamente da coordenação, acho que isso foi no finalzinho de 2016. Como cursava graduação em outra cidade até o ano passado, participava das reuniões as finais de semana e auxiliava na busca por voluntários e organização da grade. Tivemos altos e baixos no cursinho e várias questões com a prefeitura sobre um local que fosse adequado para a realização do nosso projeto, mas sempre fizemos tudo em parceria com os professores e estudantes, entendendo e sendo lembradas cotidianamente da importância de reduzir a distância do acesso às universidades para os nossos! Essas duas coisas sempre nos deram forças para seguir com a proposta do Cursinho Popular Dandara dos Palmares, onde hoje eu atuo tanto na coordenação quanto como professora de Sociologia.


Como eles estão durante esse período de quarentena?

J: Com o sarau, tentamos fazer uma exposição de arte online com artistas periféricos, sejam poetas, compositores, desenhistas, pintores, fotógrafos, artesãos, enfim. Porém, acho que a nossa proposta de fazer algo além disso se torna inviável, já que metade das pessoas que compõe a organização não possui fácil acesso à internet, o que dificulta a materialização de qualquer projeto idealizado por nós no momento. Em ambos os casos, tanto no sarau na praça quanto no cursinho, estamos falando de pessoas da periferia, que embora consigam acessar a internet precisam utilizar com parcimônia também.

No cursinho estamos mantendo as aulas em diversos formatos, principalmente em lives pra abrir espaço para outras pessoas também assistirem, mas principalmente tentando manter contato com os alunos por whatsapp, sempre perguntando como está a semana deles, qual a melhor forma de dar a aula na opinião deles, enfim.

A: Só complementando, no cursinho os professores se organizaram para ficar responsáveis por alguns mentorandos, e acompanhar o andamento dos estudos nesse momento... Mas mesmo essa ação tem sido bem difícil porque muitos não têm banda larga e os celulares só têm acesso gratuito às redes sociais.


Qual é o maior desafio e a maior recompensa de participar deles?

A: Ah, para mim a maior recompensa é ver que a galera consegue encontrar pessoas que tem a ver com elas. Acho que tanto o sarau quanto o cursinho fazem com que as pessoas se encontrem e possam trocar experiências, se fortalecerem e entenderem que elas não estão sozinhas. Vi muita gente encontrando uma rede de apoio nos dois projetos durante esses anos e pra mim isso é de longe a melhor coisa de participar deles. O maior desafio é lidar com o tempo, organizar esses projetos pode ser muito estressante e demanda muito da gente além de ficarmos sabendo de várias questões/casos delicados que os frequentadores, que geralmente se tornam nossos amigos, trazem para gente. As vezes é difícil saber quais encaminhamentos são os melhores e como auxiliar nossos colegas.

J: Meu maior desafio é lidar com o jeito diferente que outras pessoas tem de fazer as coisas, porque eu sou uma pessoa muito metódica, estabeleço prazos na minha cabeça, e às vezes acabo parecendo uma chefe chata quando cobro as coisas. Enfim, acho que lidar com esse meu lado mais responsável e controlador é um desafio grande porque normalmente é um aspecto que me gera muita insegurança. E a minha maior recompensa, pode parecer boba, mas para mim é o afeto. Porque é quando eu tô ali que eu sei o que é fazer flor brotar do concreto. É quando eu tô ali que eu sei o que Oswaldo Montenegro quis dizer quando disse que metade de mim é amor e a outra metade também. É quando eu tô ali que eu sei o que Caetano Veloso sentiu quando escreveu que a poesia realmente fez folia em minha vida. É sobre afeto mesmo.

Tem alguma situação específica que marcou vocês de forma especial no desenvolvimento de cada projeto?

A: Esse ano eu recebi uma mensagem de uma estudante que estava com várias questões pessoais que dificultavam demais a participação dela no cursinho, dizendo que fomos um apoio para ela, que essas questões tinham se resolvido e que passou na faculdade que queria. Para mim, que sou professora de Sociologia, foi muito legal no ano passado quando um estudante que trampa demais, depois de uma aula sobre “O Capital”, me disse: “olha, professora, eu não sabia que essas coisas estavam tão perto da gente. Gostei muito dessa aula, isso daí é mó tiração” (algo assim). A proposta da disciplina é essa, fazer conexões com a realidade que vivemos no cotidiano, então foi bem massa!

J: Uma situação que me marcou bastante foi quando um aluno do Cursinho do ano passado, que também é participante do Sarau na Praça, se descobriu poeta lá. Disse pra mim uma vez no intervalo das aulas que ele não fazia a menor ideia de que gostava de estudar, que nunca teve a oportunidade de descobrir antes. Hoje ele quer fazer letras. E é algo que vejo muito, essa mudança de perspectiva de futuro nas pessoas que já passaram pelo projeto. Isso me deixa marcas, marcas boas.


Agora falando de um assunto recente: o Senado acaba de aprovar um projeto que adia o Enem. A gente sabe que isso é obviamente importante demais e não poderia ser de outro jeito. Mas será que vocês podem comentar um pouco sobre a importância disso baseadas na visão e experiência que têm?


A: Nossos estudantes estavam muito ansiosos com essa situação toda, muitos deles não têm acesso à internet banda larga e estão muito preocupados também com o valor da inscrição, caso não consigam a isenção. Houve uma mobilização enorme em torno do cancelamento do ENEM, principalmente pelos cursinhos populares, uma vez que aplicar uma prova online exclui muitos jovens das classes D e E, prioritariamente o público atendido pelo Dandara - devido à baixa capacidade de permanecerem conectados à internet por longos períodos de tempo e por muitas vezes não terem um espaço adequado para os estudos, além das provas terem sido marcadas no mesmo dia dos vestibulares da UNICAMP e USP. O cancelamento foi a única decisão possível nesse momento. Considerando que já estamos em uma conjuntura que agrava as desigualdades sociais, o cancelamento ao menos é um respiro para a juventude periférica que tem que se reinventar a cada dia para acessar espaços majoritariamente ocupados pela elite econômica.


Como cada uma de nós poderia contribuir com a evolução da cultura e educação para todos? Quais são as coisas mais importantes que precisam de uma vez por todas serem entendidas?

A: Olha, acreditamos que os espaços não devem ser restringidos a nenhuma classe social, gênero ou raça. Acho que antes de qualquer coisa é importante superar os estigmas sobre a periferia e sobre os corpos periféricos e trabalhar para que as desigualdades sejam superadas.


Amanda Santos

Para fechar nosso papo, temos um bate-bola rapidinho para vocês deixarem as dicas de vocês para as leitoras:

Manhãs ou noites?

J: Manhãs.

A: Noites.


Alguma música que não consegue parar de ouvir?

J: Intimidade, da Liniker

A: Tô meio nostálgica no isolamento, então tenho escutado muito Mary J. Blige – Family Affair.

Bebida favorita

J: Brejinha

A: Brejaa

Jussara Suzano

Série ou filme que ame

J: Deus e o diabo na terra do sol, com certeza.

A: Eu AMO Eu a Patroa e as Crianças.


Tem algum livro que te marcou muito, ou está lendo algum título que recomenda?

J: Um livro que me marcou demais é “Quarto de despejo”, mas atualmente tô lendo “O mito da beleza” e tem me chocado muito.

A: Tem alguns, mas um eu li e que eu recomendo muito é “Morro da Favela”, do André Diniz.


Tem algum conselho/frase/mantra que leva pra vida?

J: Eu normalmente me importo muito com o que pensam de mim, então meu mantra é sempre pra eu não me preocupar com isso. Tô me preocupando? Repito pra mim mesma: "fod*** ninguém tem nada a ver com isso", e faço