Crônica: O amor não tem preço


ARTE VIA @lorrainesorlet

De uns tempos para cá, decidi colocar em prática uma dessas teorias bonitas que gostamos de fingir que obedecemos. Vinha percebendo que, entre burocracias e responsabilidades, as horas do meu dia se dissipavam antes que eu conseguisse preenchê-las com tudo que imaginava para elas. Não me enxergo como uma pessoa muito exigente, mas desconfio de um perfeccionismo seletivo que exaure as minhas forças em dias que pouco as tenho. Então, pensando em combater o mal-estar que vem a com a culpa e o excesso de tarefas não-realizadas, achei de bom tom com a minha sanidade mental colocar em prática essa história de aceitar ajuda e entender que não consigo (nem preciso) riscar todos os itens do checklist que idealizo como possível.


Deixar que façam por mim não é muito comigo. Talvez por ter crescido com dois irmãos homens e sempre ter precisado mostrar que sou capaz e faço melhor. Freud explica, mas não consola. E meu copo anda transbordando — disse a minha terapeuta.


Com isso em mente, aceitei num misto de tensão e alívio quando meu amado parceiro resolveu fazer umas comprinhas de supermercado para umas receitas que eu pretendia fazer. Enviei uma lista cuidadosa dos ingredientes que precisava, na esperança de nem tudo sair do meu controle. Não posso negar que sou um tanto criteriosa na cozinha, e isso se reflete inevitavelmente nas compras de mercado. Seleciono os produtos enquanto esquematizo o passo a passo dos pratos pensados. Caso algo esteja fora de estoque ou muito caro, reorganizo mentalmente a situação e reajusto o que for preciso. Eu e o carrinho nos entendemos bem.


Acontece que supermercados trazem à tona um lado muito particular das pessoas. Há quem ache uma heresia comprar uma bandeja de isopor com legumes picados e desnutridos, e há quem agradeça diariamente pela modernidade e seus abusos de praticidade. Algumas pessoas ficam cansadas só de pensar em cortar uma abóbora e outras já a compram inteira pensando em aproveitar até suas sementes. Tem que diga que alho picado em conserva é um disparate. Mas esses não devem cozinhar todos os dias, aposto.

O fato é que ninguém fará compras como você. Mas em tempos de copo transbordando, recuar é preciso. Por isso o homem lá foi, comprou tudo que eu pedi, e acrescentou um tanto a mais de coisas que achou conveniente e necessário. Tudo parecia ter dado certo, até eu ficar sabendo do valor da conta deste pulo no mercado, que me fez querer chorar antes de começar a picar cebolas.


De imediato, não soube se deveria escolher rir de minha confusão — ao tentar entender como uma lista que especificava coisas como “uma cenoura” e “duas abobrinhas” chegou a tal valor — ou se aceitava o choro besta que queria vir. Aproveitando as horas que me separavam de nosso encontro e que me dariam tempo de recuperar o bom senso, pensei por uma quantidade razoável de tempo que seria aceitável sentir certa raiva. E confesso que assim o fiz.


Para mudar a chave do meu sentimento — que eu reconhecia ser ingrato — , busquei me concentrar em como eu estava cansada e, a despensa, preenchida. Seria desonesta se dissesse que quando o encontrei já não mastigava esse misto de sentimentos. Mas logo ouvi dele, com um sorriso no rosto, enquanto arrumava as compras:


— Comprei o vinho rosé que você gosta.


Sorri de volta. E brindei ao amor que nos dá apenas esse tipo de copo transbordando.


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Paula Medeiros é a criadora e editora da newsletter Chicas & Dicas. Apaixonada por livros, bichos e música pop, é editora e escritora freelancer (mas guarda a maior parte dos seus textos em seu diário).