Chica da Semana #94: Paula Gandin e um olhar sensível para nutrição vegetariana e rituais cotidianos

A entrevista de hoje é uma entrevista que eu queria ter feito há muito tempo. Lá em meados de 2015, conheci a nutricionista Paula Gandin quando fui em busca de uma alimentação 100% vegetariana para levar para a vida. Quando me consultei com ela, descobri uma profissional não só extremamente capacitada, mas uma amiga e alguém com quem eu sabia que poderia contar nessa jornada. A Paula é muito especial. Pense numa leveza, numa sabedoria, numa simpatia. Ela tem muito a nos ensinar, e eu ainda aprendo bastante com ela. A entrevista finalmente aconteceu, e espero que vocês fiquem tão felizes como eu por isso! Pega um cafezinho e vem:



Fale um pouco sobre você para as leitoras, Paula.


Meu nome é Paula Gandin, tenho 34 anos. Sou gaúcha, nasci no Rio Grande do Sul e moro em SP já há alguns anos já. Sou nutricionista e trabalho com atendimento clinico em consultório. Estou cursando minha segunda graduação de Psicologia, com a intenção de integrar as duas áreas ainda mais, porque trabalhar com comportamento alimentar é algo bastante presente no meu atendimento. Também tenho um projeto em paralelo que chama Green Flow, que é um canal de videos pra expandir conhecimentos, tanto para profissionais como para o público em geral sobre nutrição plant-based. Ah, também sou professa de pós graduação em nutrição clínica funcional. Acho que é isso um geralzão do que faço, rs.

Você é vegana há quantos anos? Teve desafios por isso na área de nutrição, durante sua jornada?


Sou vegetariana desde os 17 anos e me tornei vegana há 6 anos. Acho que as pessoas ficavam em dúvida. Eu sempre comentava que queria me especializar nesse público, e as pessoas achavam que não ia ter paciente. Mas eu acreditei muito na segmentação e fui estudar para caramba. E deu super certo, tanto a questão do atendimento clínico como das aulas de nutrição pro público profissional, então foi uma combinação de acreditar em conseguir segmentar e ter a minha experiência pessoal. Hoje dou aula e palestras sobre o assunto, além de atender no consultório, e faço bastante coisa voltada para esse público. O começo teve desafios, sim, mas ao mesmo tempo não teve como ser de outro jeito. Quando você quer apostar em algo que quase ninguém faz, você tem que fazer de um jeito que acredita, sem muito exemplo pra se guiar. As pessoas sempre achavam um pouco estranho e tal, mas mesmo assim apostei as fichas e foi muito bom


Você viu esse estilo de vida e alimentação se desenvolver muito nos últimos anos, né? Tem alguma situação ou até caso de paciente que te marcou de forma especial?


O que sempre me marca muito é que percebo que as pessoas sentem pressões internas e externas em ter que ser um rótulo. Mas muita gente encontra várias dificuldades nessa caminhada, como comer em eventos sociais, ou dificuldade de cozinhar e de fazer as combinações certas. Então essas pessoas muitas vezes desistem de continuar no vegetarianismo e veganismo, porque pensam que não é pra elas. Quando tenho oportunidade de atendê-las, vou mostrar que esse caminho de dúvidas e dificuldades faz parte do processo, e que é assim mesmo, tem dias e situações que são mais fáceis e outros dias não. E o importante é o que você já consegue fazer pelos animais, pelo planeta, principalmente quando as pessoas carregam a base ideológica, porque é isso que nos move pra frente. Então quando vamos juntos e a pessoa vê que ela consegue dar um passo de cada vez, que ela vai aprender no seu tempo, isso é muito gratificante. Essa é uma das coisas que mais me identifico na parte clínica, porque eu não tenho um método tradicional de atendimento. Tenho focado muito em comportamento. É muito bom quando a pessoa vê que consegue unir consciência e prática. Esses desfechos são incríveis, mostrar que é possível fazer o que se deseja, sem envolver regras externas e outras pessoas. A caminhada é só daquela pessoa, e ela tem que respeitar isso. Acho que isso é o que me marca para caramba sempre.


Que dicas você daria como principais "top 3" para quem pensa em parar de de comer carne e derivados?


A primeira sugestão seria informação. Buscar todo conhecimento em relação ao veganismo e aos motivos por trás disso. É importante se fortalecer nisso, muito. A gente não faz uma mudança de alimentação porque, sei lá, vê que alguém faz e acha bonito. Na prática, isso não existe, não funciona, tem que ter algo dentro de você que te motiva, e a informação faz parte desse processo. A segunda coisa é que temos vários motivos para buscar essa alimentação, mas a gente não pode esquecer da nossa própria saúde, e acho que é um fator extremamente decisivo pra gente “perpetuar” o veganismo na nossa vida. É um ato de respeito conosco pensar nisso, porque lá na frente vai valer a pena. Buscar entender boas escolhas alimentares, comer comida de verdade, cuidar da saúde... tudo isso é importante. Em terceiro lugar, eu acho que vou falar em relação aos derivados. Existe uma conotação bastante social ainda de ser difícil. Lembro há 15 anos nem haviam opções vegetarianas nos restaurantes, mas hoje em dia, qualquer lugar aqui em São Paulo tem opção e isso é muito rico, essa mudança de paradigma. Mas temos que lembrar de ter uma motivação e realmente compreender o porquê essa mudança faz sentido pra gente. No fim mesmo, de fato o que faz as pessoas se motivarem nesse processo de transição pro veganismo tem a ver com conhecimento, com sentir que aquilo vale a pena e que faz sentido. Como somos seres sociáveis, a troca com quem acredita nisso também é muito importante, e eu mesma tive muitos amigos que me incentivaram, e isso é muito válido, a gente buscar se nutrir dessa troca.

Fala um pouco aqui pra gente sobre o seu grupo do Telegram, o que podemos esperar ao entrar lá?


O grupo do Telegram tem a ver com esse meu lado B, dessa integração da nutrição com a psicologia. Acho que falta isso na nutrição, esquecer a ideia de que as pessoas simplesmente vão pensar “ah tem que comer isso porque isso é bom pra mim então eu vou lá e como”... porque não funciona assim na prática. Ter uma alimentação saudável começa com respeito a si mesmo, tem a ver com autocuidado e autocompaixão e, claro, autoconhecimento. É um processo que muitas vezes não é dado. Então eu acho que o grupo é uma das formas de tocar em assuntos pertinentes, e lá eu busco trazer esse tipo de informação, reflexões, para gerar esse autoconhecimento. Sempre mando textos, áudios, falo sobre processos de mudança, falo sobre todas essas questões... E o feedback tem sido muito positivo, então estou gostando bastante de compartilhar a minha vivência com atendimentos voltados ao comportamento alimentar. Quantas pessoas recebem um plano alimentar e aquilo não consegue ajudar, ela vai olhar para aquilo e se sentir incapacitada. Então para a maioria das pessoas isso não funciona, portanto a a gente acaba trabalhando uma educação alimentar de outra forma. É esse o meu intuito de trabalhar nessa outra área.

Durante o isolamento, os atendimentos estão sendo feitos online?


Sim, estão rolando os atendimentos online, super! Tenho ficado bem feliz e acho que as pessoas estão vendo a necessidade de olhar para dentro, conversar, se cuidar... e de certa forma a nutrição e alimentação conseguem trazer esses tópicos à tona, então meus atendimentos têm fluido super bem. Até fiz um post sobre isso no Instagram, sobre o que aprendi com os atendimentos na quarentena. Me surpreendi com online, e pude tanto atender algumas pessoas novas como acompanhar pacientes anteriores.


Quais os maiores desafios para você nesse momento -- e o que mais tem te feito bem para lidar com tudo isso que estamos vivendo?


Tenho sentido muita falta da questão social, de estar com as pessoas que eu gosto, amigos etc. Foi um grande desafio. Durante a semana, não sinto tanto impacto, porque tenho aulas e trabalho, mas eu sinto muito no fim de semana. Dá aquele apertinho no peito de sentir vontade de estar com as pessoas e sair para fazer as coisas que gosto, mas tenho conseguido lidar com isso, tem dias melhores e dias não tão melhores. De forma geral, tem sido bom olhar para mim e pensar em algumas coisas que vão ficar e coisas que vou deixando ir, porque a gente vê que nesse período a autorreflexão tem sido muito importante. Uma das coisas que tem me ajudado é ter meu ritual da manhã, que é muito particular, acordar cedo, fazer leituras, tomar meu café da manhã com calma, me preparar para as coisas do dia, tirar esse momento mais silencioso. Começo o dia bem cedo, 6h30 ou antes, e isso tem sido muito bom e funciona para mim. A outra coisa é a atividade física que me mantém na linha porque me faz muito bem mesmo, então tenho adaptado os esportes que eu fazia ao ar livre e tenho feito um treino funcional em casa com um tempo bem direcionado... e tem sido ótimo também para o meu corpo se sentir ativo, porque para mim isso é muito importante. Outra coisa que tem me ajudado bastante é a própria terapia, e acho que todo estudante de psicologia sabe a importância disso. As conversas são muito boas para elaborarmos o que estamos sentido. Então é isso, são essas três coisas – rituais, exercícios, terapia – e as refeições de qualidade, claro, que têm me ajudado muito.



Paula, você é expert no assunto, então conta para a gente: que dicas de organização são para você as "mais essenciais" (ou que você enxerga que mais funciona com seus pacientes) para conseguir manter uma comidinha caseira e saudável na rotina?


Eu acho que é estruturar a organização da semana, tipo você ter um dia e um momento da semana em que você normalmente faça as compras (ex: todo sábado de manhã, ou quarta à noite), para você ter sempre bons alimentos em casa. Cozinhar e preparar coisas simples que não deem preguiça e não sejam muito elaboradas. Muita gente gosta de fazer mais elaboradas, claro, mas a maioria das pessoas gosta de pensar no muito simples. Congelar preparações básicas é muito importante para isso, porque não dá para contar que toda vez vamos estar dispostas a cozinhar. Ter os temperinhos secos à disposição para dar um toque final sem ser nada elaborado. Ah, e preparar no dia anterior ajuda também. Eu sou uma pessoa do planner, agenda, e gosto de saber o que vou ter no dia seguinte. Tem o método ‘5-3-1”, sabe? Que você começa pela atividade mais importante para depois desenvolver as outras... então se eu já sei o que vai acontecer na alimentação no dia seguinte, e se sei como vai ser o dia, fica tudo ótimo. Mas a gente tem que lembrar que não adianta pensar no que funciona pro outro, temos que saber o que funciona pra gente, qual é a nossa característica. Tem gente que funciona super bem em ser ativo e ir lá fazer na hora tudo, sem planejar. Não tem regra. Eu compartilho o meu jeito para quem talvez veja sentido, mas a sua personalidade é bem mais importante que o método de outra pessoa, daí de novo a a importância de se conhecer bem e trabalhar o comportamento na raiz, isso é muito importante. Eu nunca vou dizer “tem que fazer isso ou aquilo”, a gente vai montar juntos a técnica que vai funcionar pra pessoa... e cada um de fato funciona de uma maneira, é impressionante. O que eu falo são sempre sugestões da minha experiência, mas sempre coloco que o importante mesmo é cada um aprender a desenvolver o que funciona para si.

E por último nosso bate bola, pra responder com uma ou poucas palavrinhas mesmo:

Manhãs ou noites?

Hoje em dia: manhãs


Alguma música que não consegue parar de ouvir?

No momento estou sem uma música viciante rs


Bebida favorita?

Café (amo chá e chimarrão também)


Série ou filme que ama?

Friends.


Está lendo algum livro no momento ou quer nos contar um título que te marcou muito?

Tenho a lista de livros de 2020 no destaque do Instagram. Foram ótimos livros! Um que marcou recente foi a Voz do Silêncio de Helena Blavatsky. Vou até deixar aqui dois trechos lindos que anotei:


“A não ser que ouças, não poderás ver.

A não ser que vejas, não poderás ouvir.”


“Sê humilde, se queres adquirir a sabedoria: sê mais humilde ainda, quando a tiveres adquirido.” Amanhã começo a ler outro livro que chama Essencialismo.


Algum conselho ou frase que é como um mantra para você?

Loka Samastah Sukhino Bhavantu. Falo isso todo dia na meditação. Significa “que todos os seres sejam livres e felizes”.


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