• Juliana Cunha

tem dia e hora pra voltar?



vou te contar que sempre tive essa coisa quase niilista com o tempo. de que ele não existe porque foi inventado, e quem disse que eu tenho 23 anos e não mais 19? desde quando meus pais passaram dos 50 e meu irmão chegou à maioridade? sabe-se lá quem foi que decidiu que todo mundo seguiria a mesma régua para determinar o tiquetaquear que nos leva — e sabe-se lá como foi que resolvemos levar essa ideia mirabolante a sério.


pensei sobre isso porque foi agora, nesses dias que não permitem o amanhã do calendário, que cheguei à conclusão de que não dá mesmo para trabalhar das 9h às 18h e fazer uma hora de almoço. isso porque já não consigo mais levantar no que é conhecido como 7h30, nem almoçar no que um dia foram 13h, nem parar de fazer tudo só quando o relógio avisa que deu. acordo mais tarde, paro para comer em algum momento que me permita pensar a comida, fazer a comida, lavar a louça da comida e comer. as horas se arrastam até que minha cabeça dói da luz da tela do computador; minhas costas gritam e não tem cadeira que resolva; ouço os vizinhos abrindo latas de cerveja e conversando com familiares e amigos via tecnologia; e pronto, chega por hoje.


tô aqui te contando isso porque acho que revi meus conceitos de não crer na existência temporal. isso porque ao mesmo tempo em que tem tudo isso que listei no parágrafo acima, tem também uma outra coisa. todos os dias, tem uma hora que preciso acender as luzes da sala porque a luz que entra pela janela já não é suficiente, todos os dias, sinto fome perto das 14h caso ainda não tenha me organizado para cozinhar. não todos, mas vários dias, rolo o feed do Instagram e vejo uma explosão de pores do sol com a paleta mais linda que os filtros nunca conseguem captar. todos os dias, depois de comer, fica aquela vontade de tomar um café e sentir aquele boost de energia por, digamos, 34 minutos, e não mais que isso.


todos os dias, sinto saudade dos meus pais, dos meus amigos, de comer fora e não ter que lavar a louça, de poder pisar no mar, de correr na grama, de andar a Oscar Freire até chegar no trabalho, de cumprimentar o Bento, da portaria, e de comer croissant quentinho, de ligar para a Paola, minha amiga que mora em Brasília, no trajeto trabalho-casa e ela ter novidades para me contar porque saiu por aí, tomou Toddynho na padaria quando prometeu só comer biscoito de arroz trazido de casa e planejar a empresa que teremos juntas um dia porque os dias não existem e dá para sonhar, e sonhar, e sonhar. e se isso não for sinal de que parece que o relógio anda, aparentemente os dias mudam, pelo visto o calendário corre e estamos em julho mesmo não tendo saído de março, ah, se isso não tiver mostrado que tempo existe, daí já não sei mais de nada e perco as horas tentando me explicar.