Meu nome é Paula, embora minha avó materna tenha feito e entregue até pulseira de ouro com o nome Ana Paula para minha mãe. Não gosto de nome duplo, disse Maria Helena, que me batizou como bem quis. Hoje em dia, parece que ela se arrepende, já a ouvi dizer isso, mas foi uma única vez também, é verdade. "Podia ter feito essa sua vontade", me confessou, suspirando. Deve ter sido um dia tumultuado de saudades. Minha avó se foi quando eu ainda nem sabia escrever. 

E falar em escrever, é isso que faço hoje. Todo dia. A arte começa na teimosia, venho aprendendo e acolhendo isso.  

Essa newsletter surgiu da dúvida: o que quero fazer? E cresceu com as várias outras que foram surgindo no caminho: será que isso faz mesmo sentido? será que posso fazer de outra forma? Fui tentando. Fui escrevendo. 

 

Escrevo para ensaiar a minha voz, partilhar obsessões, praticar isso de viver sonhos, inventar histórias, entender minhas verdades. A sorte foi encontrar pelo caminho leitoras que me dão a mão, expandem a conversa, me mostram um lugar ao qual pertenço e me incentivam a continuar. A sorte é você estar aqui lendo essas palavras, e considerando me dar uma chance na sua caixa de entrada.

 

Obrigada por isso.

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Deixo aqui uma crônica que escrevi na Edição #120
da newsletter:

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Todos os sonhos do mundo

Quando eu ainda era uma criança ilhada em todos os sentidos da palavra na minha cidade natal, eu sentia desesperadamente um anseio pelo começo verdadeiro da vida. Escrevi um pouco sobre isso em outra edição da newsletter já. Mas o assunto voltou a me ocupar a cabeça depois do nosso Clube do Livro sobre A vida mentirosa dos adultos, conversa que foi combustível para reacender na memória vários momentos da minha pré-adolescência que me fizeram sentir os tropeços de desabrochar.

 

Suspeito ter começado tal e qual Giovana bem exemplifica no livro: com aquele olhar estranho ao espelho, quando de repente prestamos atenção e fazemos a listagem minuciosa dos azares que somos obrigados a carregar, ao contrário de (maldito seja) todo o resto do mundo. Depois, a coisa toda se concretizou com o primeiro coração partido. Nada faz a estranheza de estar presa ao nosso corpo e mente ser mais aguda do que a promessa de um amor que não se cumpriu. Era para ser grandioso, era para ser diferente, era para ser inigualável, com direito a trilha sonora, beijo na chuva em noite de lua cheia e um futuro livro de memórias. Mas foi só a vida.

 

Daí que o tempo faz a gente perceber que a grandiosidade mais se esconde no detalhe de uma palavra tímida do que em gestos perfomáticos. E gostei de enxergar isso e de ver os anos passar, muito mais do que a minha versão pré-adolescente apostaria suas fichas. Gostei da sorte (necessária), da liberdade, das boas descobertas e de sentir minha pele ser mais minha. Fui ficando mais confortável no mundo. Hoje gosto especialmente de ver minha versão adulta olhar menos para o espelho e mais para os lados, substituindo com algum sucesso o tempo perdido em autocomiseração (foco em algum). Mas tenho saudade daquele salivar pela vida exclusivo de quando a estamos apenas tateando. Não é mais verdadeiro nem mais bonito, mas sabe ser mais cheio de esperança. 

 

Uma parte de mim relembra quem fui há tempos atrás com um ar de distância, um olhar de cima para baixo, apertando os olhos para ver a imagem desfocada de uma menina que viveu coisas que não me afetam mais. A outra parte me alerta de que é falsa essa impressão. A certeza de que construímos o hoje porque carregamos o ontem se revela em tudo que fazemos, como uma boa terapia bem escancara, mas isso surge ainda mais nítido para mim quando me pego parada, com frequência, pensando pouco além de: por que o mundo é assim e o que é que eu faço com isso? A resposta, naturalmente, não chega. Não é fruto de uma suposta sabedoria, ou da certeza do tempo, porque não faz parte do crescer ter a razão na ponta da língua, ao contrário do que acreditamos um dia. 

 

O consolo chega, porém: vem da minha versão do passado viva aqui dentro que se manifesta e diz também não entender, mas me incentiva a desbravar as incertezas ainda brilhando os olhos e imaginando a trilha ideal ao fundo, me fazendo sentir um tanto menos sozinha e muito mais plural. Crescida, sim, e crescendo, como manda a música, mas tentando dançar sem perder a ternura ou a leveza de saber tirar os pés do chão.

texto: Paula Medeiros